Minha pesquisa se organiza em torno de uma hipótese que aprendi a confiar: o espaço interior se assemelha ao mar. A profundidade que não pode ser completamente medida. O movimento que nunca para. As criaturas que habitam as camadas onde a luz não chega. O mar não é uma metáfora do inconsciente — é sua imagem mais precisa. E quando Carl Gustav Jung descreveu o inconsciente coletivo como o fundo compartilhado de toda a humanidade, onde arquétipos emergem como forças que antecedem qualquer indivíduo, eu reconheci o oceano.
Trabalho com pintura acrílica, aquarela, colagem, fotografia e inteligência artificial. Não como técnicas separadas, mas como linguagens de uma mesma investigação: como tornar visível aquilo que normalmente permanece invisível.
O oceano como paisagem exterior. É o oceano como paisagem interna, o que Jung chamou de imago mundi, a forma como o mundo exterior espelha o mundo interior. Meus bichos marinhos não são estudos de biologia e sim arquétipos contemporâneos: a lagosta que carrega o exosqueleto como força e delicadeza ao mesmo tempo, a ostra que trabalha pela incorporação e não pela eliminação, o caranguejo que camufla e defende, o polvo que sufoca e envolve e que ainda pode ser outra coisa.
Nise da Silveira demonstrou empiricamente que o inconsciente coletivo existe, pacientes que nunca leram Jung produziam, ao pintar livremente, as mesmas imagens arquetípicas que ele descrevera. Ela provou que a arte é um método de conhecimento, não apenas de expressão. Minha prática parte desse mesmo entendimento: cada obra é o resultado de um diálogo entre o que emerge involuntariamente e a mão que o articula na matéria. Jung chamava isso de imaginação ativa. Eu chamo de trabalho.
Faço arte para convocar a vida no outro. Para criar o espaço imersivo onde a pessoa pode ler a própria beleza. Para revelar o que está dentro do sedimento, aquilo que elas viveram.